segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Vagamundo: "Deixando o Pago"


Alcei a perna no pingo
E saí sem rumo certo
Olhei o pampa deserto
E o céu fincado no chão
Troquei as rédeas de mão
Mudei o pala de braço
E vi a lua no espaço
Clareando todo o rincão
E a trotezito no mais
Fui aumentando a distância
Deixar o rancho da infância
Coberto pela neblina
Nunca pensei que minha sina
Fosse andar longe do pago
E trago na boca o amargo
Dum doce beijo de china
Sempre gostei da morena
É a minha cor predileta
Da carreira em cancha reta
Dum truco numa carona
Dum churrasco de mamona
Na sombra do arvoredo
Onde se oculta o segredo
Num teclado de cordeona
Cruzo a última cancela
Do campo pro corredor
E sinto um perfume de flor
Que brotou na primavera.
À noite, linda que era,
Banhada pelo luar
Tive ganas de chorar
Ao ver meu rancho tapera
Como é linda a liberdade
Sobre o lombo do cavalo
E ouvir o canto do galo
Anunciando a madrugada
Dormir na beira da estrada
Num sono largo e sereno
E ver que o mundo é pequeno
E que a vida não vale nada
O pingo tranqueava largo
Na direção de um bolicho
Onde se ouvia o cochicho
De uma cordeona acordada
Era linda a madrugada
A estrela d'alva saía
No rastro das três marias
Na volta grande da estrada
Era um baile, um casamento
Quem sabe algum batizado
Eu não era convidado
Mas tava ali de cruzada
Bolicho em beira de estrada
Sempre tem um índio vago
Cachaça pra tomar um trago
Carpeta pra uma carteada
Falam muito no destino
Até nem sei se acredito
Eu fui criado solito
Mas sempre bem prevenido
Índio do queixo torcido
Que se amansou na experiência
Eu vou voltar pra querência
Lugar onde fui parido

Composição: Vitor Ramil (poema de João da Cunha Vargas)

https://www.facebook.com/caetanodable/videos/vb.1324551686/10208309392915507/?type=3&theater


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Acordo fora de mim
como há tempos não fazia
Acordo claro, de todo,
acordo com toda a vida,
com todos cinco sentidos
e sobretudo com a vista
que dentro desta prisão
para mim não existia.
Acordo fora de mim
como vida apodrecida.
Acordar não é de dentro,
acordar é ter saída.
Acordar é reacordar-se
ao que em nosso redor gira.

JOÃO CABRAL DE MELO NETO

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"... não existem fatos (como vulgarmente os chamamos). Existem vivências, que criam uma ideia da realidade, que são como impressões digitais que inventam o resto do dedo. Os chamados "fatos" precisam se converter em histórias, para que a memória os adote como uma coisa sua. As memórias e as histórias são duas margens liquidas de um mesmo rio que é o nosso tempo interior.

Portanto, eu estou falando do tempo; de uma ideia de tempo, de um tempo que foi meu e em mim se semeou como uma certeza. "

"O importante não é onde moramos, mas onde em nós a casa mora"

"E o que restou deste encantamento que me roubava do mundo foi essa memória, que mesmo sendo ilusória, é a grande verdade que eu mantenho e na qual eu me converto em escritor:

Sou filho de imigrantes, mas sou sobretudo filho de histórias"

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Mia Couto - Aula Magna UFRGS - 2014
https://www.youtube.com/watch?v=IZtc11Bn0M0&feature=youtu.be&t=5m5s
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https://facebook.com/caetanodable/albums/10205905353616027/

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